sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Por que as PME’s de logística estão em alta?
Escrito por Arnaldo Vhieira, especialista em estratégia de negócios
Fonte : Exame.com

Todas as vezes que ligo o rádio do carro, assisto a telejornais ou leio notícias do cotidiano em mídia impressa ou pela internet, um tema paira no ar: a recessãoeconômica do país e suas consequências em diversos setores da sociedade. PIB(produto interno bruto) em queda, inflação e taxas de juros em alta, desemprego em ascensão, consumo em baixa e nível de confiança de investimento abalado, são reflexos de uma crise político-econômica instalada.
A complexidade do monitoramento deste cenário está na agenda diária dos empreendedores e, porque não dizer, de cidadãos comuns preocupados com a sobrevivência de empresas e de seus familiares.

A solução para os problemas, que acontecem em decorrência dessa situação, não é uma equação exata. Requer poder de raciocínio para analisar os ambientes, controlar gastos, ganhar eficiência na gestão de custos, no gerenciamento financeiro e cautela para investimentos. Ficar parado ou se movimentar pouco, parece a resposta adequada para muitos, inclusive empreendedores.
Sou bastante realista e, não apenas como bom estudioso do mundo nos negócios, mas, sobretudo um cidadão, sei que a situação pode agravar-se. Apesar dos “bombardeios” de notícias negativas, entendo que nem tudo é ameaça. Temos também as oportunidades, pois nesse momento de crise, as PME´s da área de logística estão em alta.
Quero aqui, portanto, explicar: diante de um momento de instabilidade econômica, as empresas de grande porte passam a revisar seus custos e produtividade, e focam nas atividades fim de sua produção, terceirizam e compartilham as atividades meio, como o estoque de seus produtos e, principalmente, o transporte e a entrega aos distribuidores e consumidores finais.
Ao terceirizar essas atividades, as empresas ganham um know-how dos pequenos operadores em determinados mercados, que transformam os custos fixos em despesas operacionais. Ao compartilhar suas estratégias, criam uma rede colaborativa entre grandes, médias e pequenas empresas, o que pode garantir a sustentabilidade da área.
Sempre afirmo que não existe receita mágica no mundo dos negócios e, diante desse novo cenário, caso você seja um pequeno ou médio operador logístico, deixo algumas dicas para sua ascensão nesse momento de crise, com objetivo de se tornar parceiro de uma grande empresa que busca implantar tais estratégias e ganhar mais eficiência nos processos produtivos e retorno financeiro.
1. Crie valores pautados na excelência da qualidade dos serviços: supere as expectativas dos clientes. A maioria das grandes empresas é certificada nos processos de gestão da qualidade e buscam parceiros com a mesma filosofia organizacional. Qualidade nos processos logísticos está atrelada aos baixos custos e aumento da produtividade.
2. Tenha uma visão sistêmica de toda área de logística: compreenda as inter-relações existentes na cadeia de suprimentos. Tal visão gera confiança entre a empresa contratante e você, o prestador de serviço.
3. Diversifique a prestação de serviços: adote diferentes modais de transporte para superar os obstáculos na entrega dos produtos. A maioria das grandes empresas está localizada nos grandes centros urbanos e não é segredo que a infraestrutura viária em nosso país é precária.
4. Utilize a tecnologia da informação como aliada para soluções sofisticadas e otimizadas em seus processos, seja no estoque de produtos ou no gerenciamento e roteirização da frota e dos serviços de entrega.
5. Treine sua equipe para que o atendimento ao cliente seja qualificado.Investir na formação de seus colaboradores é uma preparação para crescimentos futuros.
6. Esteja disposto a ouvir e estreitar um bom relacionamento com seu contratante. Empresas de grande porte acreditam que uma parceria é concretizada quando os valores são compartilhados entre cliente e fornecedores.
Todas as dicas citadas devem ser complementadas com inovação, criatividade, harmonia relacional e, sobretudo, competências para analisar de forma criteriosa como resolver a equação, superar a crise e aproveitar as oportunidades que a mesma oferece às PME´s.
Lembre-se ainda: a área de logística movimenta anualmente cerca de 11,5% do PIB do Brasil, portanto, seja otimista para alcançar as oportunidades e menos pessimista para não se apegar as ameaças. 
Arnaldo Vhieira é coordenador do curso de logística da FMU.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Crise torna o Brasil atraente para investimentos de private equity


Fonte: The wall street journal

A crise em andamento no Brasil pode proporcionar aos investidores de private equity justamente o que eles vêm buscando há algum tempo: uma porta de entrada no país.
A desaceleração da economia brasileira e a desvalorização do real neste ano está tornando o ambiente de negócios mais desafiador para empresas do país que são financiadas por private equity. Por outro lado, os investidores em participações têm em mãos capital ocioso que agora podem usar para comprar ativos a preços menores.
“Se você captou [fundos] em dólar, agora seria um momento muito atraente para comprar”, diz Cate Ambrose, presidente e diretora executiva da Associação Latino-Americana de Private Equity e Capital de Risco — ou Lavca, na sigla em inglês. Ela acrescenta que a desvalorização de 50% do real em relação ao dólar nos últimos quatro anos tornou o país mais competitivo como destino de investimentos.
Hugh MacArthur, líder da área global de private equity da consultoria de gestão Bain & Co., concorda, dizendo que muitos fundos hesitaram em investir no Brasil durante os últimos 12 meses devido à expectativa de novas quedas do real.
“Agora, o risco de desvalorização é geralmente visto como menor e, em 2015, esperamos um aumento nas atividades de firmas de private equity mirando setores menos cíclicos e menos vinculados ao consumo, como saúde [e] serviços financeiros”, diz ele.
Carlos Garcia, um dos sócios-diretores da Victoria Capital Partners, empresa de investimentos com foco na América Latina, diz que os preços dos ativos caíram com a redução das expectativas de crescimento, somada a um menor volume de capital fluindo para a região, e que a velocidade do declínio “se acelerou nos últimos meses”.
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A Victoria — que tem escritórios em Buenos Aires, São Paulo e Bogotá — se concentra em negócios no Brasil, Argentina, Colômbia, Peru e Chile.
Apesar da série de notícias políticas e econômicas negativas no Brasil — incluindo o encolhimento do produto interno bruto, o rebaixamento da nota de crédito para grau especulativo e um escândalo de corrupção —, os investidores de private equity continuaram a apostar no país. Segundo dados da Lavca, os investidores participaram de US$ 2,28 bilhões em negócios de private equity no primeiro semestre de 2015, ante US$ 1,89 bilhão no mesmo período do ano passado.
Os dados da Lavca mostram um número crescente de negócios na América Latina como um todo, com US$ 3,58 bilhões utilizados em aquisições no primeiro semestre de 2015, ante US$ 2,57 bilhões um ano atrás. No fronte da captação, os chamados parceiros limitados (que não têm responsabilidades na gerência do negócio) investiram US$ 4,27 bilhões em fundos latino-americanos na primeira metade do ano, continuando o impulso que gerou uma captação recorde de US$ 10,4 bilhões em 2014 todo.
A Bain informou, em seu relatório de 2015, que o capital disponível alocado para o Brasil cresceu à medida que fundos internacionais como Actis, Carlyle Group, General Atlantic, TPG Capital e Warburg Pincus abriram escritórios no país e saíram ativamente à caça de negócios.
No início de 2014, fundos de private equity tinham acumulado US$ 4,7 bilhões em capital comprometido destinado especificamente a investimentos no Brasil. Além disso, uma parte dos outros US$ 6,6 bilhões alocados para a América Latina provavelmente também acabará no Brasil, afirma a Bain.
Investidores de peso têm feito negócios no país. Em abril, o Carlyle Group investiu US$ 593 milhões na compra de uma fatia minoritária da operadora de hospitais Rede D’Or São Luiz SA e, em agosto, adquiriu a administradora de planos de saúde e assistência Tempo Participações SA por US$ 169 milhões, segundo a provedora de dados Dealogic Ltd. Em maio, o GIC Pte Ltd., fundo soberano de Cingapura, pagou US$ 508 milhões por uma fatia da Rede D’Or.
A Advent International, que no ano passado captou US$ 2,1 bilhões no maior fundo com foco na América Latina já levantado até hoje, anunciou, em março, sua intenção de comprar a Faculdade da Serra Gaúcha, um grupo educacional de capital fechado, e de adquirir uma participação de 13% na rede de diagnósticos médicos Fleury SA, em setembro.
Uma pessoa próxima à Advent diz que a firma americana está acompanhando o Fleury desde o ano passado, quando a empresa, que tem ações negociadas na Bovespa, divulgou que as negociações para a venda de uma fatia de 41,2% à Gávea Investimentos, pertencente ao banco americano J.P. Morgan Chase & Co., haviam fracassado.
Embora a cotação das ações do Fleury tenha se mantido praticamente estável durante os últimos 12 meses, a desvalorização do real levou o valor de mercado da empresa a aproximadamente US$ 670 milhões, cerca de 65% menor que mais de um ano atrás, quando as negociações com a Gávea estavam em andamento.
A espera também fez com que a Advent não tivesse o trabalho de integrar as aquisições que o Fleury fez do Labs D’Or, em 2011, e da Papaiz Associados, de diagnósticos dentais, em 2012.
“A empresa está muito mais madura e sólida que em 2013”, diz uma pessoa a par da situação.
Algumas firmas de private equity que atuam no Brasil afirmam que está mais fácil competir por negócios agora que as empresas enfrentam escassez de crédito. “Nos bons tempos, os empresários não queriam levantar capital com venda de participações porque não queriam que seu patrimônio fosse diluído”, diz Marcelo Hallack, sócio do banco BTG Pactual, que faz investimentos de private equity através de sua unidade Merchant Banking. “Entretanto, quando o dinheiro fica escasso, essa questão tende a desaparecer,” diz ele.
O acesso a capital está encolhendo no Brasil com o contínuo crescimento do custo dos empréstimos. A taxa Selic subiu para 14,25% ao ano em julho, ante 7,25% 18 meses atrás.
Os problemas macroeconômicos do país também afetam as firmas de private equity ao prejudicar as empresas que fazem parte de seus portfólios.
O BTG Pactual informou que sua joint venture com a Deep Sea Supply PLC é um exemplo. A empresa fornece embarcações para o suprimento das plataformas para aPetrobras.
“Esse investimento foi duplamente afetado tanto pela queda dos preços do petróleo como pelos eventos específicos da Petrobras, que resultaram em altos níveis de alavancagem e um corte significativo nos investimentos de capital planejados”, diz Hallack.
Ele diz, porém, que outros ativos no portfólio tiveram um bom desempenho porque seguiram a premissa de que conseguiriam crescer independentemente da expansão da economia brasileira. A empresa de estacionamentos Brazilian Parking Co., por exemplo, é resistente à crise, “particularmente em países como o Brasil, com uma infraestrutura de transporte público inferior”. A Rede D’Or, na qual o BTG Pactual também tem uma fatia, deve ter um desempenho superior na recessão atual devido à rapidez do envelhecimento da população brasileira, acrescenta Hallack.
A Victoria fez cinco investimentos no Brasil e no Chile no ano passado, em uma série de setores, desde empresas voltadas ao mercado local — incluindo iluminação e mídia doméstica — até exportadoras de milho, sementes de soja e materiais de construção. Mas a firma de private equity ainda não fechou nenhum negócio neste ano.
“Em 2015, até o momento, não investimos em nada ainda, [mas] não porque não quisemos”, diz Garcia, da Victoria. “Estivemos perto de fazer alguns poucos investimentos, mas a volatilidade intensa nos levou a fazer uma pequena pausa no processo.”

MINDS + MACHINE: “AS FÁBRICAS ESTÃO SE TORNANDO UMA REDE SOCIAL, NÃO UM LUGAR.”

Em palestra no Minds+Machine, o designer Mickey McManus questiona o que acontece quando internet industrial, digital manufacturing e machine learning se juntam

O que uma floresta de álamos tem a ver com inovação tecnológica? Como um jogo matemático pode inspirar um novo tipo de liderança? Por que estamos falando de Barbie em um evento sobre internet industrial? Essas são algumas perguntas que podem surgir durante uma palestra do designer Mickey McManus. Mas suas analogias e exemplos fazem tanto sentido que, ao fim da apresentação, é provável que a pergunta seja: por que eu não pensei nisso antes?
Chairman no Maya Design, laboratório de inovação e design tecnológico, McManus abriu a programação do segundo dia da conferência Minds+Machines compartilhando com o público a grande questão que o instiga hoje: como podemos configurar um ecossistema, ou uma comunidade, formada não por seres vivos, mas por coisas?
Em busca de respostas, o designer frequentemente observa o que ocorre natureza. “A humanidade vem lidando com sistemas de informações há alguns milhares de anos. Mas a natureza vem fazendo isso em ecossistemas absolutamente complexos há 3,2 milhões de anos. Um homem sábio me disse uma vez que, se você quiser fazer algo muito difícil, deve ir em busca de alguém que já fez antes. E a natureza é um laboratório há muito tempo.”
Por falar em tempo, ele cita Pando, o organismo vivo mais antigo do planeta. Trata-se de um bosque em Utah que nasceu de uma única árvore, há 80 mil anos, e hoje tem 47 mil caules que compartilham as mesmas raízes. “É um exemplo incrível de resiliência. Trata-se de um sistema mutualista, onde que é bom para mim, é bom para você. Todos somos parte do mesmo fluxo. E esse é um padrão importante quando se pensa em mudanças no setor industrial.”
Some-se à biologia um toque lúdico. Em 1970, o matemático John Conway criou um jogo a partir do conceito de generatividade (o termo se refere, grosso modo, ao conjunto de regras que determina o padrão dentro do qual um sistema pode evoluir). O Jogo da Vida reúne quatro regras simples sobre a posição das “células” no tabuleiro – se uma delas tiver menos de dois vizinhos, morre de solidão, mas se estiver cercada por mais de três células, morre devido à superpopulação. Seguindo essas regras, o sistema emergente segue sozinho, com resultados imprevisíveis.
Trata-se de um conceito valioso para quem se interessa por inovação hoje, segundo McManus. “Para ter generatividade, você não precisa fazer todo o trabalho, mas sim criar uma arquitetura rica para que as coisas aconteçam”, afirma o designer, destacando a importância de líderes capazes de criar esse ambiente favorável e se manterem envolvidos de maneira ativa no processo. “Indústrias inteiras vão estourar de um dia para o outro. Outras vão colapsar, porque não pensaram nesses padrões e confiaram na sorte – e sorte não é um grande plano.”
Essa grande ebulição em que vivemos hoje pode ser comparada a uma sopa primordial, diz McManus, referindo-se à mistura de compostos orgânicos que, milhões de anos atrás, deu origem à vida na Terra. Só que agora, seus ingredientes são três: a internet das coisas, a produção digital e o processo de aprendizado das máquinas.
O designer já se debruçou sobre a internet das coisas no livro “Trillions: Thriving in the Emerging Information Ecology”, lançado em 2012. Nele, defende que em breve a quantidade de dispositivos de computação passará de bilhões a trilhões e, quando essa barreira for rompida, a mudança de escala será tão significativa que fará com que a internet de hoje pareça nanica. 
Há cerca de um ano, porém, ele percebeu que a ascensão da internet das coisas não ocorria sozinha, e sim junto a outras duas megatendências.
Uma delas, a produção digital, agrega a esse cenário coisas como a impressão 3D, já usada até no ambiente espacial. Para indicar o impacto que essa novidade pode ter, McManus cita a fabricação da Barbie. Um contêiner de navio pode transportar até 13 mil bonecas – cada uma pesa cerca de 300g. No mesmo espaço, é possível acondicionar polímero em pó suficiente para fazer 250 mil bonecas – basta imprimi-las no destino final.
“Se alguém acha que isso não vai alterar totalmente a gestão da cadeia de suprimentos, está enganado”, afirma o designer. “As fábricas estão se tornando uma rede social, não um lugar.”
A outra grande tendência se refere à uma faceta da inteligência artificial: estamos criando máquinas que são capazes de aprender. E isso traz questões totalmente novas. Pense no carro autônomo: se ele tiver que escolher entre bater num poste (com você e sua família dentro) ou atingir um ônibus escolar cheio de crianças, o que ele fará? “Nenhum código trará a resposta para esse tipo de situação, é uma questão de autoaprendizagem”, diz McManus.
Esse é o tipo de questão com a qual ele lida em seu novo projeto, “Primordial”. “Meu trabalho hoje é tentar entender o que acontece quando essas três tendências se unem. Como colocar as pessoas em primeiro lugar? Como formatar um mundo onde a rede importa?”, afirma o designer. Boa parte da resposta, segundo ele, passa por uma palavra : cocriação.
Um relatório da consultoria Mackinsey sobre a internet das coisas, divulgado em junho, prevê que o setor pode ter um impacto econômico de US$ 3,9 bilhões a US$ 11,1 bilhões em 2025. Desse total, 40% dependem de interoperabilidade, comenta McManus. “Isso significa saber ‘jogar’ junto, ser legal um com o outro, aprender os segredos da ecologia.”